Artur Luiz Andrade   |   02/02/2022 10:00
Atualizada em 02/02/2022 18:53

Pandemia interrompeu democratização das viagens de avião no País

Tarifas altas e menos viajantes a trabalho são características pós-pandemia



Eduardo Sanovicz, presidente da Abear, ex-presidente da Embratur e da Anhembi Turismo, foi o segundo entrevistado na série pelos 30 anos da Revista PANROTAS, fundada em 1992 como Jornal PANROTAS. Ele analisou o cenário da aviação no País no Ano 3 da pandemia de covid-19 (“O 11 de setembro foi uma gota d’água perto desse tsunami”) e apontou os caminhos da recuperação (os turistas de lazer e o novo viajante corporativo), além de destacar os desafios persistentes do custo Brasil e do aumento de impostos.

A democratização do setor aéreo foi sim comprometida pela pandemia, segundo ele, com os potenciais viajantes perdendo renda (o que já estava ocorrendo antes mesmo de 2020), trocando o avião pelo ônibus ou deixando de viajar. Com as tarifas nas alturas, viajar de avião, por enquanto, é para os que precisam (a trabalho, saúde, visitar familiares) ou os que não foram tanto afetados pela crise (como os brasileiros que deixaram de viajar para o Exterior por conta das fronteiras fechadas e o público de alta renda).

Sanovicz também lamentou o destino da Ita Transportes Aéreos, que era sua associada: “o Brasil é um cemitério de empresas aéreas”, afirmou.

Confira abaixo alguns trechos da entrevista, que pode ser lida na íntegra na Revista PANROTAS.

PANROTAS – Quais os desafios para esse Ano 3 da pandemia?
SANOVICZ – A malha doméstica deve estar recomposta já no primeiro trimestre de 2022, com mais de 100% da oferta pré-pandemia. A internacional é um grande desafio e a previsão é de 100% somente no final de 2023. Outro desafio continua a ser o querosene de aviação, que subiu 91,7% nos últimos 12 meses. E também o câmbio, com uma desvalorização recorde do real. Isso impacta do leasin ao querosene. E esses dois itens respondem por 51% dos custos de uma companhia.

PANROTAS – Quem são os viajantes aéreos dessa retomada?
SANOVICZ – A grande parte, sem dúvidas, é o viajante de lazer. Temos ainda um cliente novo, que mescla lazer, corporativo e outros propósitos na mesma viagem. E o corporativo tradicional, hoje mais representado pelas pequenas empresas. Os 15% que faltam na oferta serão ocupados pelo restante do corporativo e pela volta dos eventos, como feiras e reuniões de empresas. Várias corporações estão revendo seus custos e algumas não voltarão a voar como antes.

PANROTAS – As empresas estão voando mais para destinos de lazer, que antes da pandemia não eram contemplados. Ao mesmo tempo fazem isso com recorde no preço do combustível e na desvalorização do real frente ao dólar. Não é contraditório?
SANOVICZ – A indústria aprendeu a fazer mais com custo menor. Voos que há dois anos não fechavam a conta, não ficavam em pé, agora são sustentáveis economicamente. A questão toda era o custo. Há uma equação clássica na aviação que quando o custo cai 10%, mais 14% de pessoas viajam de avião.

PANROTAS – O brasileiro respondeu bem rápido à volta da viagem de avião. Por quê?
SANOVICZ – O brasileiro aderiu à vacinação. A grande razão para termos chegado em dezembro passado a 85% da oferta de antes da pandemia foi a vacinação. E as empresas aéreas nacionais tiveram papel fundamental nisso, transportando de graça as vacinas para todo o País. Também vale destacar o trabalho de segurança feito pelo setor, como na prova de que o filtro Hepa limpa o ar de dentro das aeronaves.
Divulgação
Eduardo Sanovicz, presidente da Abear
Eduardo Sanovicz, presidente da Abear
PANROTAS
– Quais os efeitos da crise da Itapemirim Transportes Aéreos, que deixou de voar em 17 de dezembro?
SANOVICZ – Uma pena que a empresa não tenha conseguido ir adiante. O Brasil é um cemitério de empresas aéreas – Real, PanAir, Varig, Vasp, Transbrasil, RioSul, Avianca... Isso eleva nosso grau de alerta para as condições estruturais e de custo muito difíceis que existem no Brasil. Dessas, apenas a PanAir não foi vítima das condições estruturais do País ou de problemas de gestão e mercado.

PANROTAS – Com a volta das viagens aéreas, a tarifa disparou. Nunca esteve tão alta?
SANOVICZ – Nunca esteve tão alta nos últimos dois anos. Assim como o custo nunca esteve tão alto. Há um volume importante de passageiros que costumava viajar mais para o Exterior. Esse é um dos efeitos mais interessantes da pandemia e essa descoberta do Brasil deve ficar mesmo depois de acabar a crise. Foi um público pouco afetado pela crise.

PANROTAS – Com isso a democratização do transporte aéreo, iniciada em 2002 com o início da liberdade tarifária, está comprometida?
SANOVICZ – Em 2002 tínhamos 30 milhões de viagens e um tíquete médio de R$ 800. Em 2016 chegamos a 100 milhões e R$ 430. De 2016 para cá, a perda de renda do brasileiro e o desemprego têm piorado as condições para viajar de avião. E nesse momento, nesse Ano 3 da pandemia, diria que sim, a democratização do transporte aéreo fica comprometida sim. Há um segmento que voltou ao ônibus e outro que não vai mais viajar. O crescimento da capacidade de investimento das organizações depende do poder de consumo das pessoas. Não tenho certeza se isso se recupera este ano, com pandemia, eleições e crescimento econômico fraco. Vamos terminar o ano maiores que o pré-crise, mas difícil prever quando será a recuperação do setor. O endividamento com certeza vai pesar.

LEIA A REVISTA PANROTAS

Quer receber notícias como essa, além das mais lidas da semana e a Revista PANROTAS gratuitamente?
Entre em nosso grupo de WhatsApp.

Tópicos relacionados

Sobre os comentários nas notícias da PANROTAS, importante mencionar que todos eles passam por uma mediação prévia. Os comentários não são publicados imediatamente e não há garantia de publicação. Estimulamos toda e qualquer manifestação que tenha relação com o contexto da matéria, que encoraje o debate, complemente a informação e traga pontos de vistas diferentes.