Expectation Bias: entenda por quê solucioná-la pode zerar os acidentes aéreos
Especialista explica por que falhas humanas na aviação ainda acontecem - e adianta um meio de solucioná-las

O evento Safe 2 Go, promovido nesta quinta (5) pela Gol, em São Paulo, para debater a segurança na aviação comercial, foi aberto com uma palestra que buscou explicar uma das razões que ainda leva a falha de humanos na aviação - e que, se corrigida pode, um dia, zerar completamente o número de eventualidades do tipo no setor aéreo: a chamada Expectation Bios (algo como "viés de expectativa").
"Observamos nos últimos anos um decréscimo no número de acidentes, fatalidades e qualquer outro tipo de evento negativo na aviação... Nosso desafio, porém, é acabar com eles por completo, passar de um, dois por ano para literalmente zero", explicou o presidente do Departamento de Ciências da Aviação Aplicada da Embry-Riddle Aeronautical University (ERAU, Flórida), Antonio Cortés, e que comandou a palestra "Expectation Bias, uma ameaça interna".
"Um meio de chegar nisso é erradicar os 'erros humanas', mas usar essa justificativa para qualquer acidente que não tenha falha técnica é um tanto pobre, você não soluciona o motivo do humano ter errado", explicou o especialista conhecido apenas como Tony.
O QUE É?
Segundo ele, um dos meios de erradicar tais falhas dos pilotos é acabar com a tal Expectation Bias: o termo representa as ações do dia a dia que tomamos baseadas no que presumimos que vai acontecer, mas que ainda não aconteceram. Ou seja, nos preparamos e já agimos de forma antecipada a algo que, inconscientemente, julgamos que deve acontecer em sequência.
Cortés exemplifica: "Em um jogo de baseball, por exemplo, a bola vai do arremessador ao rebatedor em um milésimo de segundo, é muito rápido para dar tempo do jogador pensar em rebatê-la; assim, para ele conseguir rebater, ele presume que a bola estará em um lugar específico em certo momento, e inicia o movimento da rebatida antes mesmo do arremessador soltar a bola. Isso é um exemplo de ação presumida de algo que inconscientemente 'sabemos' que vai acontecer.
O LADO NEGATIVO
O problema, porém, é quando isso acarreta erros por suposições: se um piloto está pronto para decolar na pista dois, por exemplo, pede autorização para a torre, mas ela autoriza a decolagem apenas da pista quatro, caso o capitão do avião já presuma antes que será autorizado para decolar da pista em que se encontra, pode não perceber que aquela não é a pista certa, gerando eventuais acidentes, como um choque com outro avião decolando ou pousando na mesma pista.
"Quando você já está na pista de decolagem, só esperando a autorização, está concentrado, e pode muito facilmente deixar passar que a torre solicitou a alteração da pista. Mas é só um exemplo, tem muitos outros modos que o efeito Expectation Bias podem interferir na atividade do piloto", explicou Tony Cortés.
Uma solução para tal adversidade, porém, não é impossível de se alcançar. Para ele, algumas mudanças simples na forma de controle do tráfego aéreo e comunicação com os pilotos (e entre eles) pode auxiliar nisso. Uma dica dele é que os pilotos compartilhem entre si alguma vez que já chegaram perto de sofrer algum acidente por presumir que algo ia acontecer, deixando os outros mais ligados nisso; outra dica é a forma como as ordens são dadas pela torre - mandar mensagens mais enfáticas quando alguma alteração do plano de voo ou da pista de aterrissagem ou aterrissagem aconteça.
"Falar que um acidente aconteceu por 'falha humana' é um jeito pobre de justificá-lo, pois você não tenta achar uma solução para tal erro - mas há soluções. Precisamos entender por que esses erros acontecem, para corrigi-los e assim evitar que eles se repitam", finalizou o professor de aviação da universidade de Embry-Riddle.